Lembro-me exatamente do dia em que nasci, Deus havia expurgado-me do céu e dito:
-Aqui não resides mais!
Então meu espírito encontrou aquele frouxo corpo no ventre de minha mãe, antes que alguém me golpeasse, desapregou-se um choro de meu ímpeto, deixei os braços do divino, ele não quisera a mim. Não ungira a minha fronte.
E Deus assim o fizera com meu pai, despejando-lhe uma filha única de mulher semi estéril. Enquanto a combinação de palavras parecem se desencontrar, eu as utilizo como a justificativa de um milagre mal sucedido. Eu, um singular vestígio da fêmea jurada estéril, um milagre? Não, um percalço do destino, uma tentativa mal sucedida para o pai que sonhava com um varão.
Então assim como Deus, meu pai não ungira a minha fronte.
Ao passar dos anos envergonhara-me dos tratamentos feminis a que fui submetida todos estes anos. Indagava-me:
- Se Eva foi responsável por toda a podridão deste mundo porque deveria uma mulher entregar-se ao homem e repetir este ato fálico?
Assim envergonhava-me de minhas saias, e de todo o jogo sensual que as pernas podiam criar quando caminhava ao vesti-las. A maneira como meus cabelos emolduravam a minha cabeça. Minha pele cálida e as luvas de renda que cobriam minhas delicadas mãos. Acrescia-se tal sentimento nas absortas tardes dentre afazeres e lições com laços e fitas, bastidores e bordados que as mãos guiavam agulhas em busca de motivos decorativos, flores, pássaros, iniciais, vestígios de ternura: um rococó sem sentido.
O tempo transcorreu sob minhas constantes observações derivadas de devaneios a subserviência da figura feminil. Questionava o mito do falo, e a reveria daquelas que nasceram para ser possuídas. Aos dezessete anos não despontava olhares aos homens, era eu nascida homem sob o corpo de mulher.
Habitavam em mim, a forja, o fogo, a guerra. Tais essências eqüidistantes ao meu arranjo de ossos e carne. Estes golpeavam-se em minha contraditória existência: uma mulher nascida sob o signo de Marte.















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